A reflexão sobre a misericórdia nas Jornadas de Teologia da Católica Porto

 

Decorreram de 1 a 4 de fevereiro no Centro Regional do Porto da Universidade Católica as Jornadas de Teologia 2016, organizadas pela Faculdade de Teologia em conjugação com a Diocese do Porto, que as assumiu como formação permanente do clero diocesano. Atendendo ao Jubileu da misericórdia, as Jornadas versaram sobre tema Do Deus da misericórdia à misericórdia de Deus. Ao logo de quatro dias, os cerca de 220 participantes tiveram oportunidade de refletir sobre a misericórdia em perspetiva bíblica, teológica e pastoral.

No primeiro dia, Enzo Bianchi, prior do mosteiro de Bose, em Itália, refletiu sobre a misericórdia na Bíblia e sobre Jesus, relato da misericórdia de Deus. Depois de um breve olhar sobre a misericórdia no magistério pontifico a

partir de João XXIII, tratou-a na Sagrada Escritura, enquanto compaixão, amor e manifestação de bondade e, depois, na sua expressão suprema em Jesus de Nazaré. Trouxe à reflexão a variedade lexical bíblica em torno do tema da misericórdia, abordou-a na relação com a verdade e a justiça, e apresentou os seus eixos fundamentais a partir de alguns passos e intuições do Antigo e do Novo Testamento. De Jesus, disse ser o grande hermeneuta do Antigo Testamento. É Ele que narra o Deus em que acreditamos, um Deus que tem vísceras de misericórdia como uma mãe. Ao longo das suas conferências, foi estabelecendo oportunas e fecundas conexões com a vida eclesial do presente, nomeadamente com o estilo pastoral que tem marcado o pontificado do papa Francisco.

De tarde, D. António Couto explorou o texto de Mt 25,31-46, alusivo às obras de misericórdia. Apresentou a respetiva estrutura e estabeleceu várias conexões com outras passagens bíblicas, sobretudo com o livro dos Génesis. O provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, António Tavares, apresentou alguns projetos recentes com que a Santa Casa da Misericórdia do Porto dá corpo às obras de misericórdia, confrontando a ação da mesma com a legislação portuguesa e o papel do Estado.

A manhã do segundo dia foi dedicada à abordagem teológica da misericórdia. José Pedro Angélico, docente de teologia fundamental, teve oportunidade de refletir sobre a misericórdia na sua relação com o viver e pensar teologal, apresentando-a como a racionalidade própria do discurso teológico. Com ele dividiu a mesa, José Eduardo Borges de Pinho, docente da Faculdade de Teologia em Lisboa, que discorreu sobre a Igreja, casa da misericórdia. A sua conferência incidiu sobre a misericórdia como interpelação à identidade da Igreja e sobre alguns pressupostos e indicativos relativos ao anúncio, celebração e testemunho da misericórdia, a propósito dos quais lançou um conjunto de questões à vida e à pastoral da Igreja.

A tarde desse dia reuniu numa mesa-redonda representantes da Associação Coração Amarelo, da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor e da comunidade Emaús – Caminho e Vida, para se referirem a algumas expressões atuais das obras de misericórdia. As intervenções versaram sobre o trabalho com os sós, idosos e em abandono, com crianças e jovens em risco, mães adolescentes e mulheres vítimas de violência, e ainda com os sem-abrigo feridos pela vida.

O terceiro dia foi dedicado ao sacramento da penitência. De manhã, D. Bernardino Costa, abade de Singeverga e docente de liturgia, percorreu a história do sacramento, apresentando os modos como a penitência foi celebrada ao longo dos séculos, concretamente a penitência pública, tarifada e privada. Arnaldo de Pinho, professor jubilado da Faculdade de Teologia, refletiu teologicamente sobre este sacramento no quadro da crise atual. Partindo do conceito de culpa e do contributo das ciências humanas para a compreensão da penitência, discorreu sobre a importância da simbólica sacramental e sobre o uso que dela se tem feito no âmbito deste sacramento, sublinhando a concluir a relevância da receção semântica e não apenas dogmática da mensagem eclesial.

De tarde, João Peixoto, diretor do Secretariado Diocesano de Liturgia, apresentou o ritual da penitência nas suas possibilidades e limites, destacando, entre vários aspetos, a atenção dos pontífices à penitência, a estrutura do rito, o papel e o perfil do ministro, a importância da Palavra de Deus e dos atos do penitente. Carlos Gonçalves, carmelita descalço e professor de psicologia da Universidade do Porto, abordou as continuidades e singularidades da relação entre atendimento/acompanhamento espiritual e consulta psicológica. Partindo das conflitualidades históricas entre os dois serviços, deteve-se sobre as convergências e especificidades de cada um, para se referir à qualidade da relação estabelecida nos dois enquanto catalisadora e mediadora da transformação do sujeito.

O último dia trouxe à reflexão sobre a misericórdia as perspetivas espiritual, moral e pastoral, com os contributos de dois docentes da Faculdade de Teologia. Alexandre Duarte falou da misericórdia com os outros a partir da misericórdia com Deus. Amar a Deus é poupá-lo ao sofrimento que lhe infligimos ao não o pouparmos naqueles em que Ele, ainda hoje, está “crucificado” e que são objeto da nossa misericórdia. Jorge Cunha deteve-se sobre a misericórdia como critério moral e pastoral, colocando em contraste a ordenação da sociedade na base da lei e na base da misericórdia. Na sua comunicação procurou olhar a partir da misericórdia a justiça penal, a justiça social e o testemunho eclesial. As Jornadas concluíram-se com a celebração da Eucaristia, presidida por D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, que acompanhou de muito perto o decurso dos trabalhos.

As Jornadas favoreceram mais uma vez a abertura da Faculdade à realidade eclesial e cultural portucalense, permitindo que muito leigos, religiosos e ministros ordenados tenham vindo à Universidade refletir sobre a misericórdia em ordem ao serviço pastoral e à vivência e testemunho crente.