As Jornadas de Teologia 2017 refletiram sobre Maria e a experiência e celebração da fé

Decorreram de 30 de janeiro a 2 de fevereiro, no Centro Regional do Porto da Universidade Católica, as Jornadas de Teologia 2017, organizadas pela Faculdade de Teologia em conjugação com a Diocese do Porto, que as assumiu novamente como iniciativa de formação permanente do clero portucalense. No contexto do centenário das aparições de Fátima e tendo em conta o plano diocesano de pastoral, tiveram por tema «Fazei o que Ele vos disser»: Experiência e celebração da fé. Ao longo de quatro dias, quase 200 participantes tiveram a oportunidade de se deterem sobre diferentes temáticas a partir da mariologia e com mais incidência sobre a celebração da fé.

A abertura contou com intervenções de Manuel Afonso Vaz, presidente do Centro Regional do Porto da UCP, e de D. António Francisco dos Santos, bispo do Porto, que acompanhou da iniciativa de início ao fim. Em seguida, Ildebrando Scicolone, professor jubilado do Pontifício Instituto Litúrgico de Santo Anselmo (Roma), proferiu duas conferências: A piedade mariana na evangelização e Maria na celebração dos mistérios de Cristo. Na primeira, situou a piedade mariana no âmbito dos pios exercícios do povo cristão, mas não da Igreja enquanto tal, e entendeu-a como ponto de partida de uma evangelização, se as suas formas forem colocadas em relação com o plano salvífico de Deus. Na segunda, apresentou Maria como imagem da Igreja, porquanto nela se realizou tudo o que se deve realizar na Igreja e nos seus membros. A partir da Marialis cultus, refletiu sobre Maria enquanto exemplo da atitude da Igreja que vive e celebra os divinos mistérios, ilustrando com exemplos da iconografia e da eucologia, neste caso através da leitura e comentário ao prefácio (illatio) de Natal do rito hispano-moçárabe.

De tarde, Arnaldo de Pinho proferiu a conferência Sentido e repetição: Sobre algumas formas tradicionais de devoção mariana. Fixou-se concretamente na ladainha de Nossa Senhora enquanto texto poético de invocações, que não apresenta uma configuração ideológica que fecha o discurso, mas que o abre ao desconhecido. Disse tratar-se de um texto de afeto e invocação que parte de circunstâncias diversas, invocando a plenitude de um absoluto salvífico. O primeiro dia concluiu-se com a visualização do documentário O rosto de Maria na arte, um itinerário pela iconografia mariana ao longo da história e na atenção a diferentes geografias.

A manhã de terça-feira comportou a reflexão bíblico-teológica sobre a figura de Maria na atenção ao discipulado e ao rosto materno da Igreja. Bernardo d’Almeida, professor de Sagrada Escritura no Porto, dissertou sobre Maria, a discípula amada nos escritos joaninos. Sem nunca ser chamada pelo nome, Maria é apresentada no quarto evangelho como a mãe de Jesus e a mulher, a esposa fiel, aquela que vive totalmente de Deus. Não sendo aí dita expressamente discípula amada, nela transparece, contudo, a vivência plena do discipulado. Enquanto amada de Deus, segue o seu filho como discípula exemplar, concedendo a quem o segue o dom de ser filho amado de Deus. José Eduardo Borges de Pinho, docente da Faculdade de Teologia em Lisboa, discorreu sobre A maternidade de Maria e o rosto materno da Igreja, detendo-se na maternidade de Maria como interpelação a uma Igreja encarnada, como indicativo do papel maternal da Igreja, como impulso ao peregrinar na fé no seguimento de Jesus e a um estilo maternal de evangelização, como fruto da ação do Espírito e desafio a uma Igreja nele atenta aos “sinais dos tempos”, como interpelação à Igreja no testemunho da misericórdia e do amor pelos mais frágeis.

De tarde, Tiago Ferreira, maestro do Coro da Sé do Porto, falou sobre Maria na música sacra. Percorrendo o património musical da Igreja, desde o canto gregoriano até à música contemporânea, passando pela música medieval, renascentista, barroca e romântica, evidenciou o caraterístico das formas musicais de cada época, ilustrando-o com a audição de partes de várias composições marianas. João Peixoto, diretor do Secretariado Diocesano da Liturgia, abordou então A pastoral litúrgica na Diocese do Porto após o II Concílio Vaticano II. Depois de aludir às primeiras iniciativas tomadas no Porto logo no termo do Concílio, focou-se no papel do Serviço Diocesano de Música Litúrgica e do sucessivo Secretariado Diocesano de Liturgia, evidenciando a ação do P. Ferreira dos Santos a partir dos anos 70 e as múltiplas iniciativas desde então desenvolvidas, num movimento de renovação que cobriu a geografia diocesana.

Na quarta-feira, Abel Canavarro, professor de Mariologia na Faculdade, abordou o tema Mariofanias: Desvelamento de Cristo. Partiu das mariofanias como uma constante da vida da Igreja, reportando-se ao seu significado e atualidade. Elas revelam o rosto de Deus na linguagem da feminilidade e da maternidade que o homem compreende. Referiu-se depois à Igreja face às mariofanias, apontando os principais critérios de discernimento, designadamente a atenção à sinceridade e retidão moral das pessoas envolvidas e à doutrina teológica verdadeira e isenta de erro. Concluiu com a relação entre as mariofanias e o mistério da fé. Se não colocarem Maria e Cristo em concorrência, mas garantirem uma aproximação a Cristo, podem ajudar à vivência da fé e evitam o risco de desenvolverem uma Igreja paralela ou perceções apocalíticas. Seguiu-se a intervenção de Alexandre Freire Duarte sobre Maria no desafio de uma espiritualidade ecuménica, uma comunicação que, tendo por base os textos dos acordos ecuménicos sobre Maria, formulou os principais pontos de convergência, reportou umas observações decorrentes da leitura desses textos e apresentou alguns desafios para uma espiritualidade ecuménica: a focagem no essencial; a ligação entre obediência e liberdade; a busca e edificação da verdadeira humanidade; o equilíbrio entre passividade acolhedora e atividade ousada e incarnacional; o diálogo respeitoso com uma nova linguagem…

De tarde o teólogo Jorge Cunha e a socióloga Helena Gil Costa juntaram-se para uma comunicação intitulada Olhar o peregrino, olhar o peregrinar, partilhando alguma reflexão produzida na Universidade a partir do estudo da peregrinação ao Santuário de Nossa Senhora da Saúde da Serra, em Vale de Cambra. Jorge Cunha efetuou um diagnóstico consequencial do trabalho prático e experiencial da religiosidade “popular” ou pré-reflexiva, realizado por Helena Gil Costa. Para isso, mapeou algumas formas ou categorias do sentido do peregrinar, no contexto sociocultural português e inserindo-as na cultura portuguesa. Helena Gil Costa mostrou vários caminhos e olhares a partir da experiência de um grande número de pessoas, numa reflexão e partilha sobre as histórias reais e vividas por eles como uma forma “preambular” da expressão vivencial do peregrino.

As jornadas concluíram-se na quinta-feira com a conferência de Bernardino Costa, abade de Singeverga e professor de Liturgia, sobre A liturgia e a fé: A dimensão performativa do rito. Em ordem a uma compreensão da beleza da liturgia e partindo dos pressupostos que levam a uma antropologia litúrgica, referiu-se à sobriedade e à embriaguez do rito, para concluir com uma abordagem da liturgia como representação do invisível, contribuindo para que seja percebida no contexto de uma rede de sinais que interagem entre si.

A encerrar as Jornadas e antes da eucaristia, D. António Francisco dos Santos teve oportunidade de se dirigir aos presentes, sublinhando a importância desta iniciativa na articulação entre a Faculdade de Teologia e a Diocese do Porto, referindo o seu valor na abertura cultural ao mundo e no âmbito da “cultura do encontro”, aludindo ao contexto proporcionado pelo centenário de Fátima e pelo plano diocesano de pastoral e atendo-se à preparação das Jornadas e à síntese do seu conteúdo. Ficam a concluir algumas palavras textuais da sua síntese: «Nos temas desenvolvidos tínhamos um fio condutor ténue mas seguro que nos ajudou a unir, a aprofundar conhecimentos, a ligar elementos de um todo cheio de harmonia e de beleza. Do visível abordámos o invisível, das mariofanias conduzimo-nos às epifanias de Deus, da religiosidade popular fomos até aos mistérios de Cristo, tocados de perto, celebrados, vividos e rezados aqui, e abrimo-nos aos imperativos da evangelização. Aqui tivemos de tudo para descobrirmos como foi oportuno o tema escolhido e quanto foi gratificante o que aqui ouvimos e aprendemos. […] Da música passamos à liturgia, abordamos a espiritualidade ecuménica e sentimo-nos convidados a olhar e a peregrinar. Aqui encontrámos sempre, neste esforço conjunto, a centralidade de Cristo no mistério da nossa fé e aqui descobrimos o lugar de Maria sem excessos nem defeitos. Aqui sentimos o coração e o rosto materno da Igreja que queremos ser no Porto».

As Jornadas abriram mais uma vez a Faculdade de Teologia à realidade eclesial e cultural portucalense, permitindo que muito leigos, religiosos e ministros ordenados tenham vindo à Universidade refletir sobre a experiência e celebração da fé a partir de Maria, aquela que, no contexto celebrativo e festivo de Caná, disse: «Fazei o que Ele vos disser».